Memória Local na Escola conta história das cidades pelos olhares de crianças

Há muitos jeitos de se conhecer a história de uma cidade; é possível fazê-lo visitando museus, esmiuçando o tracejado de mapas ou vislumbrando fotos antigas. Mas a cidade também é a memória local de seus moradores, e emerge nas andanças do carroceiro, na fala da moradora centenária ou na lembrança de uma criança.

É olhando para cidade que se constrói nas palavras e memórias de seus habitantes que nasce o programa Memória Local na Escola. Iniciativa do Museu da Pessoa em parceria com o Instituto Avisa Lá e patrocínio da Ultragaz, o projeto convida crianças de escolas públicas a contarem a história de cidades entrevistando seus habitantes e ilustrando suas reminiscências.

Em 17 anos, o projeto já rodou por 70 municípios brasileiros, construindo exposições e livros a partir da contação de histórias: “O Museu da Pessoa sempre trabalhou com a história de vida de pessoas. E quando você as escuta, elas geralmente falam de um lugar, mesmo que não percebam. É daí que nasce a ideia do projeto”, relata Sônia London, diretora-executiva do Museu da Pessoa.

Metodologia de coletar lembranças

O projeto Memória Local na Escola funciona numa tríade entre o Museu da Pessoa, que entra com a experiência em coleta de memória e escuta de pessoas, o Instituto Avisa Lá, com prática em formação de professores, e as Secretarias Municipais de Educação, que articulam o contato com as escolas públicas onde por oito meses ocorrerá o projeto.

“A metodologia de coleta de memória é feita em três pilares: o registro da memória, sua organização – torná-la acessível, não como um veículo, mas como leitura – e depois sua transformação em vídeo e/ou texto”, explica a diretora-executiva.

Para escutar e coletar a memória do outro, matéria tão sensível quanto intangível, é preciso antes aprender a olhar para si, como detalha Sonia: “Para ouvir a história do outro, tenho que saber contar a minha. Envolvemos os professores, coordenadores pedagógicos e os alunos e os incentivamos a contar sua própria história.”

Feitas as contações de histórias dos envolvidos no projeto, pergunta-se para as crianças, em geral do ensino fundamental, sobre quais moradores da cidade elas gostaria de saber mais:

“São pessoas bem comuns, mas que para os alunos existem e dizem muito da cidade. Tem o bombeiro, o gari que cata resíduos sólidos e dono de carroças bem bonitas, ou o pasteleiro da praça”, detalha Sonia.

A escola que não sabe de tudo e está sempre aprendendo

Quando a escola abre suas portas para entrevistas com as pessoas detentoras de saberes locais, descobre mais sobre a cidade e também si mesma:

“Já aconteceu de uma pessoa ter feito algo para que aquela escola existisse, e a escola nem sabe. Essa instituição, que muitas vezes se coloca como detentora de saberes, aprende que tem muitas histórias sobre ela própria que desconhece.”

Depois da escuta, as crianças têm a missão de transformar em texto e desenho o que lhes foi relatado. As fabulações que surgem da colisão entre infância e memória dos moradores mais velhos são intensas: Sônia recorda de uma menina que morava próximo ao rio Tamanduateí (SP) que ouviu de um morador local que, quando era mais jovem, era possível nadar nele. Indignada, ela questionou: “Se era tão bom, por que mudou?”

O produto final desses diálogos sobre a cidade construída em memórias consiste na feitura de livros ou exposições. “As pessoas produzem conhecimento da vida e na vida. O conhecimento é adquirido por uma experiência única, e aquela experiência produz um saber. Escutar as pessoas é a forma mais autêntica de ter acesso à isso.”

Prefeitura de São Paulo inicia projeto de requalificação do Largo do Arouche desenhado por Triptyque e Estúdio Módulo

A Prefeitura de São Paulo deu início à primeira etapa de intervenções para a requalificação do Largo do Arouche, ponto muito movimentado da região central da cidade. O projeto prevê a pavimentação e nivelamento do passeio do Largo e a instalação de novo mobiliário urbano, incluindo bancos, paraciclos, bebedouros, balizadores e guarda-corpos.

A proposta, desenvolvida pelo Triptyque Estúdio Módulo, visa a criação de um grande bulevar de uso público destinado, preferencialmente, para os pedestres, com acesso restrito aos automóveis e veículos de serviço. As intervenções visam a valorização do desenho histórico da região e o projeto busca dar uma nova opção aos frequentadores do Largo do Arouche, com um espaço requalificado, contemporâneo e que remeta à história mantendo seu traçado original, informou a prefeitura.
 
O espaço também contará com mais postes de iluminação e quiosques para sanitários, uma base fixa para o policiamento, outra para a comunidade LGBT e uma terceira para os cuidadores da praça. O acervo artístico (esculturas e bustos) presente na praça será mantido, bem como as áreas verdes, onde também serão criados novos espaços para cultivo e hortas comunitárias.
 
A ação é realizada por meio de uma parceria com a Associação Viva o Centro e conta com o apoio da Câmara de Comércio França-Brasil, Société Générali, Alstom, Saint Gobain, Renault, LVMH, Accor, BNPP – Paribas, Endered-Ticket, Leroy Merlin, AXA, Air Liquide, Veritas, Carrefour, GPA , Air Bus, Pinheiro Neto, Triptyque, Interbrand, Cabrera, Chenut Advogados, SNEF, Estúdio Módulo de Arquitetura, Egis, Engie, Instituto Cidade em Movimento, SETEC e Readymake.

Para Danilo Miranda, sem arte, cultura, pesquisa e conhecimento vamos criar uma sociedade de brucutus

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, diretor-regional do Sesc-SP critica possibilidade de cortes no Sistema S e fala do perigo de se formar um país “onde só vale aquilo que tem resultado prático e palpável”

Danilo Santos de Miranda, 76, é hoje uma das figuras mais atuantes e influentes na área cultural no país. Diretor regional do Sesc-SP (Serviço Social do Comércio) há 35 anos, promoveu uma enorme expansão e qualificação do trabalho da instituição no estado de São Paulo, voltado para cultura, educação, esporte, lazer, alimentação e meio ambiente. “É isso que eu chamo, amplamente, de sociocultural, esse campo vastíssimo que torna as pessoas mais capazes de se entenderem, conhecerem a si mesmas, conhecerem o outro e conhecerem o mundo a sua volta, indispensável para uma sociedade que pretende melhorar, crescer e se desenvolver”, diz ele em entrevista à ARTE!Brasileiros.

Tamanho reconhecimento da ação do Sesc-SP, que acaba de inaugurar uma grande unidade em Guarulhos, não foi suficiente para tirá-lo da mira do governo Jair Bolsonaro (PSL), especialmente de seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que afirmou que pretende “meter a faca” no Sistema S. Formado por diversas instituições – como Sesc, Sesi, Senai e Sebrae – o sistema é financiado por taxas compulsórias cobradas na folha de pagamento das empresas (em 2018 teve um orçamento de cerca de R$ 17 bilhões) e tem um controle público através do Tribunal de Contas.

Para Miranda, nunca se viu uma incompreensão tão grande da importância do trabalho do Sesc desde sua fundação, nos anos 1940. “Falta conhecimento dessa complexidade, desses 72 aos de história realizando uma ação muito efetiva pelo Brasil afora e em São Paulo de modo específico. Temos muito capital de conhecimento acumulado, muita bagagem recolhida. Não se pode vir e dizer que vai cortar aqui ou ali pura e simplesmente.”

Mais do que isso, o diretor-geral da instituição, formado em sociologia e filosofia, se diz estarrecido com a falta de percepção da importância do conhecimento, da filosofia, da ciência, da pesquisa, do estudo, das artes e da cultura. Sem isso tudo, diz ele, surge o risco de formarmos um país “supermaterializado”, onde só vale aquilo que tem resultado prático e palpável. “E isso é o início do debacle, o início do fim, porque significa ter um povo sem informação, sem conhecimento e sem participação efetiva na sua história, no conhecimento de suas raízes, suas origens, seus destinos, suas perspectivas. E sobretudo é uma ameaça do ponto de vista ético, porque a partir daí vale a lei do mais forte, a lei do mais violento. E aí vamos criar uma sociedade de brucutus, o que é muito perigoso para o país.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

ARTE!Brasileiros – O Sesc acaba de abrir uma unidade em Guarulhos. Qual a importância dessa inauguração para o Sesc e para a cidade de Guarulhos?

Danilo Santos de Miranda – É muito importante para a cidade, para o Estado, enfim, para tudo o que nós fazemos. É uma realização já planejada há algum tempo, assim como outras que temos em previsão, e ela tem praticamente uma síntese da ação que o Sesc realiza. Tudo que o que fazemos está lá em Guarulhos. É uma unidade bem completa, eclética, bastante ampla, generosa do ponto de vista espacial e do ponto de vista programático. E está em uma cidade que tem a segunda maior população do Estado, depois da capital, e que estava carente de uma unidade com as características que o Sesc oferece. Então para nós é um encontro imenso de interesses. O nosso interesse em expandir a ação da instituição e o interesse enorme da cidade em ter um Sesc que pudesse atender a sua população e a das cidades próximas também. Existe ali perto uma população bastante carente, periférica, que necessita de muitas coisas que nós realizamos.

Existe nesta unidade uma pauta ambiental muito forte. É algo que o Sesc está buscando aprofundar?

Nós recebemos ali o complemento de uma área que quase dobra nosso terreno, e que é voltada para um programa amplo de educação ambiental junto às escolas do bairro e da cidade, junto à população e aos formadores de opinião. Ou seja, pensar sobre a relação com a natureza de um modo geral, pensar de maneira adequada sobre o uso dos produtos que a natureza oferece, seja para a alimentação, seja para a vivência das pessoas, para tudo que nós temos à disposição. Teremos oficinas, encontros, debates e a oportunidade até mesmo de realizar experiências com as crianças no que diz respeito à produção ligada à natureza, plantando, colhendo e realizando uma ação bastante efetiva.

Isso significa, portanto, que apesar das ameaças de cortes no Sistema S, o Sesc segue trabalhando normalmente, sem retrair sua atuação por medo do que pode vir?

Exato. Claro que nós temos uma antena muito bem ligada em tudo que está acontecendo à nossa volta. Mas é claro também que o modo mais prático e objetivo que temos é continuar trabalhando e mostrando a importância e o significado do que fazemos para a sociedade, para a população, para a melhoria de vida. Então nós tocamos esse barco com a maior naturalidade, querendo mostrar para as pessoas, sejam as que frequentam ou as que tomam decisões atualmente no país, que o que nós fazemos é indispensável, essencial para a população, para a sociedade e para o desenvolvimento do próprio país.

Isso é uma maneira, digamos, de reafirmar não a nossa importância enquanto instituição, não de dizer que a gente faz o melhor programa do mundo – não se trata de uma afirmação institucional pela vaidade, isso não nos interessa –, mas simplesmente de dizer que o campo sociocultural de modo geral, esse campo vastíssimo que torna as pessoas mais capazes de se entenderem, conhecerem a si mesmas, conhecerem o outro e conhecerem o mundo a sua volta, é indispensável para uma sociedade que se pretende melhorar, crescer e se desenvolver. Então nós temos que entender isso como algo absolutamente essencial. E a maneira que nós temos de fazer isso é continuar o nosso trabalho, levar adiante.

O Sesc, e mais especificamente o Sesc São Paulo, tem um longo e reconhecido trabalho nas áreas da Cultura e da Educação. Cultura e Educação, justamente, são áreas que parecem bastante ameaçadas nas políticas do atual governo federal. Como o senhor enxerga esse momento e quais os riscos que vê para a sociedade com as novas políticas e propostas? 

Eu acho muito perigoso, sobretudo, uma manifestação que se ouve com relação ao conhecimento, à informação, à ciência, à filosofia, à sociologia, como se fossem inimigos de um país que pretende se desenvolver, crescer e melhorar para todos. E também contra as artes e as manifestações do simbólico de modo geral, como se fossem coisas supérfluas, desnecessárias, desimportantes. Esse campo todo que eu chamo, muito vastamente e amplamente, de campo do sociocultural, seja do conhecimento ou seja das práticas, é vital e essencial. Eu espero que percebam cada vez mais e melhor como é perigosa essa afirmação de que o conhecimento, a filosofia, a ciência, a pesquisa, o estudo, as artes e a cultura não são importantes. Isso é muito perigoso e significa a formação de um país supermaterializado, onde só vale aquilo que tem resultado prático e palpável. E isso é o início do debacle, o início do fim, porque isso significa ter um povo sem informação, sem conhecimento e sem participação efetiva na sua história, no conhecimento de suas raízes, suas origens, seus destinos, suas perspectivas. E sobretudo é uma ameaça do ponto de vista ético, porque a partir daí vale a lei do mais forte, a lei do mais violento. E aí vamos criar uma sociedade de brucutus, o que é muito perigoso para o país.

Nesse sentido, como o senhor mesmo disse em entrevista recente à Folha de S.Paulo, existe um discurso de que as instituições do Sistema S deveriam focar principalmente na formação de profissionais, no que o senhor chamou de uma “perspectiva economicista precária”. Poderia explicar melhor o que quis dizer?

Existem dentro do chamado Sistema S as instituições vocacionadas para a formação profissional, que são necessárias e importantes desde os anos 1940, que foram criadas com essa perspectiva. Mas existem também dentro do Sistema S outras instituições que não são para isso, que trabalham na perspectiva do bem-estar, do lazer, da cultura, do esporte inclusivo e democrático – o esporte não competitivo, mas que inclusive abriu caminho para muitos atletas profissionais, como o Pelé, por exemplo. Isso tudo faz parte da nossa proposta como algo inerente ao nosso dia a dia. E uma coisa que eu acho fundamental, e digo sem querer gerar polêmica, é que, se conhecerem mais profundamente o nosso trabalho, se mergulharem efetivamente no que nós fazemos, do ponto de vista educativo, eles vão provavelmente não só respeitar e considerar os recursos que temos como adequados, ou irão até mesmo pensar em destinar mais recursos para que isso possa ser feito. Porque essa é, do nosso ponto de vista, a grande formação do povo, de uma maneira mais integral, mais plena, onde todos os aspectos do ser humano são levadas em conta. E aí não estou falando só da cultura e da educação, mas das atividades físicas, da alimentação, da saúde de modo geral, da questão ambiental, da nossa relação conosco mesmo, com o outro e com a sociedade à nossa volta. Tudo isso é essência do processo educativo, que nós procuramos fazer da maneira mais completa possível.

A pluralidade de opiniões e de manifestações artísticas, o respeito à diversidade e o espaço para debates e discordâncias são marcas das atividades do Sesc. Você diria que essa é uma característica que incomoda alguns de nossos governantes, que parecem ter pouco apreço pela pluralidade e pelo debate?

Pode ser que sim. A diversidade é essencial em uma sociedade plural como a nossa. Em qualquer sociedade, eu diria. E, nesse sentido, contemplar as diversas linguagens e todas as questões que dizem respeito à diversidade – no tocante a raça, cor, religião, opção sexual, ao modo de enxergar as coisas, às visões sobre nossa história e política –, tudo isso é indispensável. E essa variedade é, sem dúvida, parte do DNA de origem do Sesc. Então a diversidade está na nossa essência, no nosso dia a dia.

Por um lado, o senhor fala de uma incompreensão do trabalho que é feito pelas instituições do Sistema S, do papel da arte e da cultura. Mas existe também uma percepção, por parte de muitos membros deste governo, de que as áreas culturais e as universidades seriam os nichos da esquerda, espaços de doutrinação, num discurso que cita um suposto “marxismo cultural”. Isso não significa que, mais do que uma incompreensão, existe mesmo uma escolha clara de um inimigo a ser combatido, digamos assim?

É verdade. E não classifica-se apenas genericamente as universidades e entidades, mas especificamente professores, artistas e intelectuais. Porque essas pessoas comprometidas com a análise social, com a visão ampla da sociedade em todos os sentidos, o artista que tem essa vocação não apenas de criar o encanto, o encantamento, mas também de apontar as questões e trazer à baila discussões sobre temas bastante polêmicos, fazem isso com a intenção de melhorar a sociedade. Partem do princípio de que a sociedade necessita evolução. Nós temos um grande, imenso e gravíssimo problema no país chamado desigualdade. Isso não precisa ser de direita, esquerda ou centro. É uma constatação objetiva, direta, está aí. Então qualquer pessoa com alguma sensibilidade, com algum conhecimento, com algum esforço, ao perceber isso, se torna uma pessoa com atitudes, opiniões e manifestações que são coerentes com esse ponto de vista. É natural, normal. Se de repente alguém considera isso uma posição contra o estado ou uma posição necessariamente esquerdista, isso é uma precipitação sem sentido.

Trata-se de uma evolução natural de qualquer sociedade, não da nossa. O pensamento sobre a necessidade da igualdade como patamar para uma vida melhor para todos é uma coisa natural. Isso é comunismo? Isso é marxismo? É exigir que todo mundo seja igual? Não, isso é a gente desejar que a sociedade seja melhor para todos, não apenas para alguns. Então nesse sentido existe uma atitude, no meio cultural, de apontar, contestar, polemizar e até mesmo transgredir. E estou falando aqui de transgredir do ponto de vista estético, não do ponto de vista legal e moral. As coisas mudam. O que seria da arte contemporânea se o Picasso em um determinado momento não tivesse rompido com os padrões da época e transformado sua arte em algo absolutamente revolucionário? E hoje, inclusive, ele já é visto como um homem do passado… Então do ponto de vista do pensamento de modo geral, da estética, existe uma evolução natural. Ou quem lida por exemplo com a discussão sobre gênero, que é um entendimento muito mais atual, presente e necessário – inclusive agora com a criminalização da homofobia.

Enfim, o que eu quero dizer é que trata-se de algo que a sociedade naturalmente evolui. Não adianta se colocar contra determinadas ações que vêm da sociedade, porque elas naturalmente se impõem, vão mais longe. Mesmo que não haja nenhum apoio ao mundo da cultura, aos artistas, que cortem a Lei Rouanet, mesmo que tudo seja vetado, não vai acabar com a cultura do país. Porque ela é natural, vem de qualquer jeito, vem como uma enxurrada em cima daqueles que eventualmente achem que isso não tem a menor importância. E provavelmente são aquelas pessoas que são contra a cultura e quando pegam o carro a primeira coisa que fazem é ligar o rádio para ouvir uma música. É natural, estão consumindo cultura o tempo todo, falando uma língua, usando uma roupa, se alimentando de um determinado jeito… e não percebem que estão consumindo cultura todo o tempo.

Estávamos falando mais dos possíveis cortes no Sistema S, mas o senhor falou agora também da reformulação na Lei rouanet. Houve ainda a retirada de patrocínios para projetos culturais por parte de empresas públicas e outras iniciativas nessa linha…

É lamentável. E inevitavelmente a sociedade reagirá de uma forma ou de outra.

Para o ex-ministro da cultura Juca Ferreira, hoje em dia quem trabalha com cultura está com medo, acuado. Você percebe este clima?

Noto manifestações das mais variadas. Noto que há um temor, já com as muitas dificuldades e impactos concretos. Isso gera um clima de bastante insatisfação. No meu contato com as universidades, do mesmo modo, percebo esse medo. Por outro lado posso dizer que vejo alguns sinais de boa vontade. Tive contato com algumas pessoas no próprio governo, na Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania, que estão atentas e bem-informadas, buscando caminhos para a superação dos problemas. Então há uma certa contradição no todo, mas talvez tenhamos algum caminho para encontrar saídas no futuro.

Nesse sentido mais propositivo, de buscar caminhos, como o senhor pensa que pode haver uma resistência à essas ameaças às áreas da Cultura, da Educação e ao Sistema S. É preciso vir à público, se unir, se manifestar?  

A primeira coisa que eu acho é que é preciso se manifestar. Eu tenho vindo à público quando posso, como responsável por uma instituição que pertence a esse “grupo dos S”. Acho que temos que falar, discutir. No nosso caso, apesar de discussões em andamento no governo, ainda não houve uma atitude efetiva de corte, um decreto, uma lei, uma proposta…

É mais um discurso do que uma prática?

Sim. E se isso vier a virar prática eu acredito que haverá uma natural reação – não estou pregando nada, mas observo de fora – de muita gente. E essa reação poderá desdobrar dentro do parlamento, da Justiça, de todas as instâncias que o país tiver, para poder esclarecer, aprofundar e tomar as decisões da maneira mais correta possível. Porque existe uma questão programática, ou seja, da importância das ações dessas instituições, mas além disso elas tem um arcabouço legal muito sólido, que não é tão fácil de retirar como se elas fossem parte do Estado, porque não são. Na realidade falta conhecimento dessa complexidade, 72 aos de história realizando uma ação muito efetiva pelo brasil afora e em SP de modo especial. Então isso tem muito capital de conhecimento acumulado, muita bagagem recolhida, então não se pode vir dizer que vai cortar aqui ou ali pura e simplesmente.

Hermitage lança projeto on-line gratuito para estudar obras de arte

Site que reúne mais de 100 materiais, entre vídeos, galerias de fotos e relatos dos curadores, oferece uma imersão pelo museu de São Petersburgo e exposições.

O Hermitage, mais famoso museu de São Petersburgo, lançou um novo projeto educacional on-line. O site “Academia Hermitage” reúne mais de 100 materiais gratuitos, incluindo diversos textos e vídeos, dedicados à história da arte.

O conteúdo foi agrupado em dez categorias, como “Arte da Itália”, “Os cômodos da residência imperial”, “O mundo dos citas”, “A história do Hermitage, seus edifícios e coleções”, “A arte de Flandres”, “Na corte dos imperadores russos” e “A guarda imperial russa”, entre outros.

Com vista para as margens do rio Neva, no centro de São Petersburgo, o Museu Hermitage abriga uma das mais importantes coleções de arte do mundo. Originalmente, o edifício fazia parte do palácio que abrigou a família imperial por dois séculos, até o início da Revolução de 1917.

A coleção do museu conta com cerca de três milhões de objetos de arte de diferentes épocas, expostos em 350 salas.

Caso um visitante admirasse cada obra ou pintura por apenas um minuto, essa viagem pelo mundo da arte duraria quase 8 anos.

Países que investirem em educação e criatividade serão os bem-sucedidos, diz Barack Obama no Brasil

O que une Brasil e Estados Unidos? Para Barack Obama, 44º presidente norte-americano, é a grande diversidade dentro das fronteiras de ambos os países. “A maior força dos dois países é a diversidade. É incrível a criatividade e inovação que conseguimos ao juntar pessoas de diferentes experiências e vivências”, afirma. O ex-presidente americano falou por cerca de uma hora. Dentre os assuntos,educação, o futuro do trabalho e, claro, diversidade. “Quanto mais pessoas você conseguir incluir, maior o seu pool de talentos. Se negros e mulheres não forem incluídos, você não está aproveitando todo o talento disponível.” Cordial, Obama falou “boa tarde” em português, afirmou que o Brasil é um dos lugares para os quais mais gosta de viajar, e que ouvia Tom Jobim quando namorava Michelle, sua esposa.

Obama ressaltou a importância de equipes diversas. “Sempre precisamos ter mulheres na mesa de decisão. Se sua organização só tem homens que se parecem entre si, está provavelmente perdendo informações”, afirma. “Todo mundo tem seus pontos cegos. Ouvir pessoas diferentes de você te ajuda a tomar melhores decisões, ajuda a ver o mundo com olhos de outras pessoas.”

Apesar dos desafios de seus oito anos na Presidência dos EUA, Obama diz nunca ter se sentido intelectualmente sobrecarregado pelo cargo. “Eu acredito muito que criei uma boa equipe e confiava nela. Você é tão bom quanto a equipe que consegue construir”, diz. “Um bom líder não é quem tem as repostas, eu acho que minha força era ter as perguntas certas. Quando se é presidente, você não pode ser especialista em todos os temas de que tem de tratar, mas precisa fazer as perguntas certas e construir essa equipe.”

Outro aprendizado que a Presidência trouxe, diz Obama, foi a de estar confortável com tomar decisões “com base nas probabilidades”. “Só as questões mais difíceis e que ninguém soube responder chegam ao presidente. Em muitas das minhas decisões, como o ataque ao local onde estava [o terrorista] Osama Bin Laden, ou a tentativa de salvar os bancos da crise [de 2008], eu não podia garantir que dariam certo. Mas eu confiava na minha equipe e no processo que construímos para chegar àquela decisão.”

Citando as similaridades entre os dois países, Obama afirmou que Brasil e Estados Unidos são as duas maiores democracias do continente. Ambas, porém, foram fundadas com base na desigualdade. “A Constituição dos EUA fala que todos são iguais, mas isso não incluía negros, mulheres ou pessoas que não possuíam propriedades. O processo democrático nos permitiu incluir mais pessoas, e quanto mais pessoas incluímos, maior o sucesso que obtivemos”, afirma.

O ex-presidente dos Estados Unidos participou da convenção de varejo Vtex Day, em São Paulo.

Educação
Durante sua fala, Barack Obama ressaltou a importância da educação e inclusão para que qualquer país tenha sucesso na economia. O ex-presidente afirmou que é preciso criar um sistema educacional que prepare crianças e jovens para o pensamento crítico. “As pessoas querem que os fatos se encaixem nas opiniões que elas já têm”, diz. “Acho que o mais valioso da educação é aprender a habilidade de analisar a realidade, mesmo quando isso é desconfortável e prova que aquilo que eu achava ser verdade está errado.” A escola, diz o ex-presidente dos Estados Unidos, precisa preparar os estudantes não só para absorver informações, mas para analisar criticamente a informação que recebem.

Com a evolução da inteligência artificial, investir em novos modelos de educação se torna ainda mais importante. “As máquinas vão fazer os trabalhos manuais com muito mais eficiência do que os humanos, mas só as pessoas podem ser criativas. Os países que ensinarem suas crianças a serem criativas e a pensar criticamente serão os mais bem sucedidos economicamente”, diz. “Sem investir nas pessoas, é improvável para um país ter sucesso no longo prazo.”

Fazer isso, diz Obama, envolve tomar decisões e passa por investir em educação. “Na Finlândia, os professores ganham tanto quanto médicos, e é muito difícil se tornar professor. Como resultado, é um dos países com a melhor educação do mundo”, afirma. “Se os professores ganham 1/100 do que os banqueiros, isso mostra que você não valoriza educação”.

Desigualdade
Após sair da presidência, Obama tem focado seu trabalho em preparar novos líderes em todo o mundo. “Avaliei que meu maior impacto seria o de inspirar outras pessoas a se envolverem, acho que meu maior impacto é encorajar as pessoas para que se engajem a fazer a diferença”, diz.

Barack Obama contou que, em sua primeira visita ao Brasil, quando ainda era presidente, jogou futebol com crianças em uma favela no Rio de Janeiro. “Lembro de pensar que aquelas crianças se pareciam comigo quando eu era criança. Eu nasci em país que me permitiu crescer, apesar das dificuldades. Acho que é importante trabalhar para dar oportunidades a todos. Isso melhora sua economia, qualifica sua força de trabalho, suas empresas terão mais sucesso.”

Segundo Obama, não é possível alcançar uma “igualdade perfeita”. “Há pessoas que são naturalmente mais talentosas. Acho que ninguém acha ruim que Bill Gates tenha tido sucesso, ele criou coisas incríveis e permitiu toda a computação que temos acesso hoje”, diz. O importante, segundo ele, é criar oportunidades para todos.

“Temos uma mentalidade que dificulta criar sociedades mais igualitárias, fomos ensinados que o dinheiro é a medida do nosso valor e sucesso, mas precisamos de uma revolução dos valores”, diz. “Eu acredito nos mercados, no capitalismo e na eficiência em criar riqueza, não quero destruir inovação, criatividade e liberdade do sistema de mercado, mas temos que desenhar esse sistema de uma forma que não destrua nossos valores”. Isso, segundo ele, envolve não apenas a desigualdade, mas também questões como sustentabilidade. “Não adianta muito termos ótimos aplicativos e realidade virtual se o mundo real está ficando cada vez mais quentes, o nível dos oceanos continua a subir e não conseguimos respirar.”

Fracasso
“O que me permitiu ser corajoso? Eu falhei antes e sobrevivi. As cicatrizes dos erros são as lições que te dão confiança adiante na vida.” O maior desafio para muitas pessoas, segundo Obama, é o medo do fracasso.

“Quando decidi concorrer à presidência, muita gente me dizia que não era possível ter um presidente afro-americano. E as pessoas tentam te proteger do fracasso. Eu tinha que dizer, até mesmo para a Michelle, que eu ficaria tudo bem se não desse certo.”

Mais da metade dos brasileiros acha os museus monótonos. Artistas e curadores dão ideias para ‘espanar o pó’ das instituições

Eles são “monótonos”, “previsíveis”, “elitizados” e pouco visitados. Para a maioria das pessoas ouvidas numa pesquisa inédita do Oi Futuro , os museus, definitivamente, precisam melhorar sua imagem. Metade dos 600 entrevistados de “Museus: Narrativas para o futuro” acha que estamos falando de espaços para ir apenas uma vez. Foi, tá visto. E, apesar das muitas selfies recentes diante de fachadas arrojadas, 81% ainda acreditam que museu ocupa prédio histórico e de arquitetura clássica.

— Não é o que nós, ativistas do setor, gostaríamos de ouvir — reconhece a museóloga Bruna Cruz, coordenadora da pesquisa, contando que os resultados serão compartilhados com as redes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e do Conselho Internacional de Museus (Icom). — Precisamos trabalhar para provar o contrário, nos comunicar melhor e descobrir, juntos, como engajar novos públicos.

Afinal, quem nasceu para musa não deveria jamais perder o brilho. Como lembra Marcello Dantas, um dos mais ativos curadores do país e com projetos em vários lugares do mundo, “museu” vem do grego “mouseion”, que significa “templo das musas” .

— Justamente por isso, ele é um lugar de inspiração, de provocar ideias, não um depósito de objetos— diz.

Legal não é superficial

Mas o que fazer para espanar a poeira que, como a pesquisa revela, criou camadas de estereótipos sobre os museus? Como aponta Roberto Guimarães, gerente executivo de Cultura do Oi Futuro (onde funciona oMuseu das Telecomunicações ), quando se fala em centro cultural, a percepção dos entrevistados é diferente:

— Talvez o que a pesquisa sublinhe seja isso, que a palavra, o conceito, na nossa cultura, ainda está muito ligado a velho, mofo, antigo. É uma questão de nomenclatura. Quando dizemos que algo é velho, dizemos que é “coisa de museu”. A mudança passa pela educação. O desafio é fazer com que as pessoas achem que o museu pode ser uma extensão da casa delas, fazer com que criem uma relação afetiva e de pertencimento com o que está sendo visto.

Para o arquiteto, cenógrafo e curador Gringo Cardia é preciso começar cedo. Quando projeta um museu, ele diz, seu foco é claro.

— Meu alvo é um garoto de 13 anos — diz. —Ele tem que gostar de ir, achar que é bacana. Museu é para perpetuar o legado, e quem vai fazer isso são as crianças. Então, temos que criar uma coisa lúdica, com diversão, humor e participação da família. As pessoas querem se sentir dentro da história, querem saber se o museu tem a ver com elas.

Gringo gosta de fazer isso usando projeções e vídeos. Um exemplo é a Casa do Rio Vermelho, em Salvador. A antiga residência de Jorge Amado e Zélia Gattai, que ele transformou em memorial, reúne tanto material que é impossível ver tudo num dia só. E a ideia é essa mesma.

— Faço de propósito. Meu interesse é que as pessoas se tornem habitués daquele espaço — diz.

Interatividade, imersão, teatralidade, jogos, conexão, tecnologia… O dicionário dos museus (a propósito: eles são 3.785 no Brasil segundo o Ibram, e 18 de maio é o Dia Internacional deles) foi ganhando novos conceitos. Para Gringo, porém, muita coisa ainda é confundida com superficialidade.

—Recebo críticas de quem diz que meu trabalho é superficial, que é a superficialidade da sociedade do espetáculo. No mundo inteiro os museus estão mudando, e o Brasil está demorando a aceitar isso, as grandes instituições ainda têm restrições a novas linguagens, ficam arraigadas a conceitos acadêmicos muito rígidos. Fica uma pompa que não tem nada a ver. O lugar está decadente e continuam com aquela pose.

Só botão não é solução

Marcelo Dantas faz coro.

— Não adianta acervo incrível, se não traz as pessoas para ver. Este é um problema do pensamento de muitas instituições. Falta poesia e sobra burocracia — comenta o curador, que apesar de explorar linguagens digitais em seus projetos, não as vê como único caminho. — Imagine o tédio se todos os museus só tivessem conteúdo virtual. Interatividade não é ter botão para apertar, é ser inclusivo, se conectar com o público.

A diretora Bia Lessa concorda que “o museu tem que se abrir para a cidade” e “ser visto por todos”, mas faz ressalvas em relação ao uso das novas tecnologias para atrair visitantes:

— Não acho que museu tenha que ser um parque de diversões, um lugar só de entretenimento. É um espaço de reflexão, sagrado. Tem que ter todas as linguagens, passadas, futuras, contemporâneas, mas não penso que o simples fato de ter tecnologia signifique modernizar.

Ou, como defende a holandesa Danielle Kuijten, vice-presidente do Comitê para o Desenvolvimento de Coleções do Conselho Internacional de Museus (Icom), o museu do futuro deve ser um espaço que conecte passado e presente, capacitando as pessoas a buscar respostas e promover ações.

— A tecnologia é um recurso para atingir o público, mas sem abrir mão dos conteúdos analógicos.

Todo este debate leva a outra conclusão sobre a pesquisa do Oi Futuro , que será divulgada na quarta-feira.

— A pessoa do século XXI quer ter uma experiência no museu: ver, tocar, interagir, deixar uma marca — diz Roberto Guimarães.

Portas abertas para outras experiências

A pesquisa do Oi Futuro destaca quatro tendências para museus que querem se conectar melhor com o público:

1. Oferecer experiências novas e surpreendentes entre os objetos e o público, “principalmente em coletivos, pois as pessoas preferem visitar museus com outras pessoas”. 2. Suprir o desejo de participação do visitante. 3. Dar caráter de experiência inédita a cada visita ao museu. 4. Posicionar o museu como opção permanente de lazer e entretenimento da comunidade em que atua.

O próprio Oi Futuro anuncia novidades no Museu das Telecomunicações. No segundo semestre, o espaço vai passar por uma reforma e, além de aumentar seu acervo, ampliará o leque de atrações interativas. Entre elas, está uma sala onde vão entrar até seis pessoas dispostas abrir suas redes sociais para que outras possam visualizar.

O Museu de Arte do Rio (MAR) também tem vai ganhar um novo espaço imersivo no primeiro andar , com a instalação digital “Fluxo”, desenvolvida pelo estúdio SuperUber. Ela vai ser aberta junto com a nova exposição “Rio dos navegantes”, no dia 25. “Fluxo” fica em cartaz até novembro. Depois a sala vai receber novos projetos de medialab do museu.

— Este espaço pode dialogar com as outras exposições, mas não precisa ter obrigatoriamente uma narrativa. É uma experiência sensorial, queremos provocar o público de outra maneira — frisa Eleonora Santa Rosa, diretora-executiva do MAR, que se reuniu com grupos de jovens para orientar a estratégia do museu. — Temos que usar a maior variedade de linguagens, até para explorar ao máximo nossa coleção.

Discussão mundial

Os temas que mobilizam os especialistas no Brasil estão sendo discutidos no mundo todo. No mês de outubro, em Amsterdã, o Museu do Amanhã participará do primeiro encontro dos Museus Orientados para o Futuro, que contará com instituições como o Futurium, de Berlim, e o Climate Museum, de Nova York.

— Falta conexão entre os gestores. Não importa se é um museu contemporâneo e outro mais tradicional, nossas questões são as mesmas — analisa Ricardo Piquet, diretor-presidente do IDG, organização social responsável pelo Museu do Amanhã . — Quando pensamos no museu do futuro, não estamos falando apenas de tecnologia. Os acervos físicos sempre terão espaço, mas é possível contar aquela história de uma forma melhor com o auxílio de um conteúdo audiovisual ou uma holografia.

Criador do Festival Multiplicidade, que nasceu em 2005, misturando arte e tecnologia, o artista visual Batman Zavareze lembra que a edição que teve recorde de público (cerca de 40 mil pessoas em um mês), no ano passado, foi com uma “instalação extremamente analógica”: uma escultura feita com 32 quilômetros de durex, onde podiam entrar até 20 pessoas de uma vez.

— A sensação era de estar entrando dentro de um casulo. Entravam pequenos com seus avós e todos chegam a uma linha mágica e viravam criança por algum momento. São narrativas poéticas, que geram um retorno de contato, de afeto, que nenhuma tela pode dar — ressalta Zavareze.

Tunga e baleira

Pesquisador do mundo das novas tecnologias, Zavareze admite que tem “forte sedução pelo modelo tradicional de museu”. Mas acha que fechar as portas às novas mídias, hoje, seria como “negar a respiração”:

— O esqueleto de uma baleia em tamanho natural é impressionante e sempre será. Uma escultura do Tunga é impressionante e sempre será.Mas nada impede que se crie novas experiências, novas ferramentas para contar velhas histórias. O museu tem esse papel de trabalhar as narrativas.

 

Festival de arte Street River vira polêmica

A nova edição do festival Street River, marcada para ocorrer neste final de semana, não foi muito bem recebida pelas artistas paraenses. O evento anual reúne, por uma semana, expoentes da arte urbana do Brasil e do mundo para uma espécie de residência artística na Ilha do Combu. O resultado é uma nova leva de obras, em grafite, pintadas nas fachadas das casas ribeirinhas, formando o que é reconhecido pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 2016, como “a primeira galeria de arte fluvial do país”.

Desde sua primeira edição, em 2014, no entanto, a organização do projeto recebe questionamentos de artistas locais, em especial, as mulheres. Uma situação que só agravou com a proposta deste ano, intitulada como a “Primeira Edição do Street River GRLPWR. Um recorte do Artivismo Feminino dentro do StreetArt Nacional”. Segundo divulgado na página do evento do Instagram, a proposta é ter “Artistas Brasileiras enchendo de Cor a Ilha do Combu com seus trabalhos autorais e suas histórias de luta e resistência”. E foi ao disparar a lista de artistas convidadas para este ano, que veio a descrença no discurso que vendia o evento, pois apenas uma delas é paraense, Nayara Jinkss. As demais são Rafa Mon (RJ), Mag Magrela (SP), Lidia Viber (RJ), Criola (BH) e Clara Valente (BH). Choveram comentários nas publicações do evento na rede social, o que se agravou com a tentativa da organização de excluir os que contestavam a presença quase exclusiva de artistas de fora da região Norte.

REPÚDIO

Dois coletivos de artistas paraenses publicaram notas de repúdio e foram endossadas por dezenas de artistas. “Ao questionarmos a falta de artistas paraenses ao organizador do evento em sua rede social, nossos comentários foram apagados e nossos perfis bloqueados. O que nos indica que, além de nos invisibilizar enquanto artistas, também fomos silenciadas. Um evento que usa mulheres artistas de outras regiões carregando a bandeira do feminismo, que visibiliza determinadas mulheres, mas que ao mesmo tempo silencia outras, é no mínimo incoerente”, colocou o Freedas Crew em sua nota.

NOTA PÕE MAIS LENHA

A nota dada pela organização em resposta aos protestos afirma que suas ações não restringem-se aos dias de pintura, mas também a realização de projetos sociais, ambientais e educacionais na Ilha. Apontam, por exemplo, a instalação de filtros de água potável e placas de energia solar. Mas um trecho da nota, em especial, não agradou em nada a cena artística local. Neste, eles alegam que o convite aos artistas parte de “diversos motivos curatoriais”, norteados “pela capacidade de captação [de patrocínio]”, que seria mais fácil por meio de “artistas nacional e internacionalmente reconhecidos”.

O coletivo Mulheres Artistas do Pará (M.AR) foi o primeiro a expressar repúdio a essa resposta. “Para a construção de uma arte representativa para e sobre mulheres é necessário que se pense não apenas gênero, raça, classe e sexualidade, mas também a territorialidade. Não deixar que as mulheres da Amazônia falem sobre a Amazônia não é ‘artivismo’, mas sim cooptação de lutas importantes para todas as mulheres que precisam e querem ser ouvidas e acabam silenciadas em nome de dinheiro e visibilidade”, responderam coletivamente.

A paraense Moara Brasil, que atualmente mora em São Paulo, também apontou a incoerência. “Sou uma paraense que teve que sair da sua cidade para ser valorizada pela própria cidade, porque a mente colonizada ainda persiste de gostar somente daquilo que é de fora. […] É papel do curador ‘curar’, é papel do curador pesquisar, consultar, entender o contexto regional e inclusive é papel do curador compreender também a casa que será grafitada […], entender se existem artistas indígenas nesse território indígena que queiram pintar suas casas! Curadorias assim só pioram o mercado, a visibilidade da arte amazônida e aumenta a ferida de uma cena artística”, apontou.

ARTISTAS CONVIDADAS FAZEM PARALISAÇÃO

Depois de serem bloqueadas nas redes sociais, as artistas passaram a fazer comentários marcando os perfis das participantes do evento. “Eles nos deram uma resposta porque as mulheres convidadas a participar exigiram deles uma retratação”, afirma Ester Guerreiro, do Freedas Crew. Em mensagens enviadas diretamente às paraenses, as convidadas afirmaram entender todas as questões levantadas e decidiram paralisar temporariamente. Pelo calendário do evento, elas chegaram em Belém com dias de antecedência para começar as pinturas e concluí-las durante este final de semana, com a visitação do público.

“Elas postaram cada uma nos stories das páginas do Instagram sobre o posicionamento de paralisação temporária. Por pressão delas, eles marcaram uma roda de conversa na sexta”, destaca Ester, referindo a uma segunda nota da organização do evento, chamando as artistas locais para uma conversa aberta – sexta, às 18h, com local a definir – para colocar suas questões em debate junto com as convidadas. “Não foi iniciativa da organização e te afirmo isso. O evento está na quinta ou sexta edição e nunca fizeram isso. Essa conversa só foi marcada pela dimensão que tudo isso tomou”, finaliza.

Meetup IMPACTO #4

Os Meetups foram criados no Vale do Silício, Califórnia (Estados Unidos), com a finalidade de reunir profissionais da região depois do expediente para conversar sobre determinado tema e tomar um café ou uma cerveja.

O Instituto Ekloos adaptou o modelo para iniciativas de impacto no Brasil, visando ampliar e fortalecer o ecossistema social na cidade do Rio de Janeiro. O objetivo é gerar oportunidades de conexão e redes de colaboração entre organizações da sociedade civil, negócios sociais, áreas de responsabilidade social de empresas, institutos e fundações.

Os encontros serão periódicos e cada Meetup Impacto contará com a apresentação de um financiador e um empreendedor social que compartilharão suas experiências. Ao final, haverá espaço para trocas entre os participantes.

13/junho – 17h30

Local:  LABORA Oi Futuro – 5º andar

Rua Dois de Dezembro, 107 – Flamengo, RJ

Programação

Arte e Inclusão Instituto Corpo Tátil

Política de Investimento Social RIOgaleão

Espaço para a criação de Redes

Inscreva-se em:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSf2Crge40YDeMNQfBOI4UU9s8WLpyKEVCz63m6WxG_JpXhvng/viewform

Técnico cria Museu da Informática e oferece ‘viagem no tempo’ em Limeira

O rápido avanço da tecnologia tornou obsoletos equipamentos que há três décadas eram de última geração. Foi por meio dessa observação que o técnico Luiz Tiago Sampaio, de 38 anos, teve a ideia de criar o Museu da Informática de Limeira (SP). O objetivo é ‘reviver’ computadores que tinham o tamanho de uma mala, aparelhos de fax, placas e processadores, entre outras peças. Ao todo, são 200 objetos e a maioria ainda funciona.

“É realmente uma viagem no tempo. Sobre os disquetes, por exemplo, muitas crianças e adolescentes nunca ouviram falar deles”, comentou. “Hoje em dia é comum ver pessoas se queixarem da lentidão dos aparelhos, até mesmo os portáteis, e pensei: há cerca de 20 anos, eles mal existiam. Os computadores eram muito mais lentos e e o acesso a eles extremamente difícil”, complementou o idealizador do projeto, que foi inaugurado neste mês.

Sampaio contou que começou a adquirir os equipamentos por conta própria, a partir de sites de compras.

Profissional da área de informática, ele viu de perto a escalada dos equipamentos e quis “registrar essa história” com a ótica de quem vive no Brasil.

Acervo
O memorial da informática tem, atualmente, cerca de 200 peças em exposição, entre os quais, 40 são computadores e metade deles ainda funcionam. Os mais antigos datam das décadas de 70 e 80, Osborne One, um dos primeiros portáteis no mundo todo.

“A máquina pesa cerca de 13 quilos e tem o tamanho de uma mala, o que dificultava o trabalho dos técnicos em campo, por exemplo”, lembrou Sampaio. ”

O Museu tem também modelos como oTK-90X, fabricados no Brasil e outras máquinas que ainda eram alimentadas com informações por meio de disquetes ou linhas de comando. Os computadores mais novos do acervo são os Macintosh, com mais de 25 anos de existência e em pleno funcionamento.

O memorial guarda também outros itens como placas, processadores, válvulas, disquetes e programas (softwares) e outros hardwares (equipamentos). Quase todo acervo foi adquirido pelo idealizador do projeto com recursos próprios. “O investimento nos primeiros equipamentos ficou em torno de R$ 20 mil.

Sampaio deseja ampliar a exposição e aceita doações. Os itens do museu também podem ser conferidos pelo site  www.memorialdainformatica.com.br e as doações de equipamentos para a ampliação do projeto podem ser realizadas no mesmo endereço.

Serviço
O Memorial da Informática fica na Rua São João, nº 49, na Vila São João em Limeira (SP).

Cinema fica mais pobre no Brasil e no mundo. Streaming e mudança climática explicam isso

A produção audiovisual brasileira está em xeque. Em abril, a Petrobras anunciou que não renovará o patrocínio de 13 eventos culturais, a maioria deles relacionados ao cinema, como a Mostra de Cinema de São Paulo, o Festival do Rio, o Festival de Brasília e o Anima Mundi, entre outros projetos. No mesmo mês, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), principal fonte de financiamento público do país, suspendeu o repasse de verbas para a produção de filmes e séries. A esse cenário somam-se o fim do Ministério da Cultura, as reformas na Lei Rouanet e a decisão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) de descontinuar seu apoio financeiro para o programa Cinema do Brasil, voltado à exportação de filmes brasileiros. A situação, no entanto, não é uma exclusividade do país. “O corte de financiamento público no cinema é um problema global”, diz a EL PAÍS Johanna Koljonen, autora doNostradamus Report, um relatório anual que analisa as tendências no mercado global do audiovisual e que é apresentado nos festivais de Gotemburgo (Suécia) e de Cannes.

A sexta edição do documento aborda os principais movimentos no mercado destreaming, o papel do cinema nessa nova cadeia de produção, os possíveis caminhos da realidade virtual na indústria audiovisual e, principalmente, esse futuro incerto do financiamento público. “A curto prazo, os diversos incentivos fiscais ainda garantem muito dinheiro público na produção de filmes europeus, por exemplo. De médio a longo prazo, no entanto, infelizmente a tendência é negativa”, continua Koljonen. A especialista explica que, nos países em que partidos conservadores e ultranacionalistas têm chegado ao poder, a situação é mais complicada. “Quando ganham eleições, reprimem o financiamento das artes, em geral, porque percebem a multiplicidade de vozes como uma ameaça. O que temos percebido é que mesmo quando eles não chegam diretamente ao poder, os demais partidos geralmente adotam uma postura mais alinhada à direita ideológica, que subestima o financiamento cultural”, acrescenta.

Kolnojen aponta que, em escala global, o financiamento cultural corresponde a uma “minúscula parte” dos orçamentos nacionais e regionais, mas tem grande valor simbólico. “Parte do problema é que os diversos setores das artes não são bons em medir o impacto dos gastos nessa área. Não dá para defender e proteger os orçamentos e patrocínios argumentando apenas que a ‘a arte muda vidas para melhor’. Precisamos descobrir como medir o que isso significa. Felizmente, hoje é possível medir quase tudo em escala comercial”.

Essas medições são especialmente importantes para o cinema no contexto de crescimento exponencial das plataformas de streaming, cujo mercado global, segundo prevê o relatório Nostradamus, será dominado nos próximos anos pelas divisões de conteúdo de gigantes como Amazon, Apple, Google e, talvez, Facebook. “Eles têm enormes quantias de dinheiro para gastar na produção, tanto que fazem as majors deHollywood e até a Netflix parecerem pequenas, e isso afetará indústria cinematográfica em todo o mundo. É claro que também tornará ainda mais difícil para outro conteúdo competir no mercado puramente comercial”, avalia a autora do documento.

Outro obstáculo para o financiamento da indústria audiovisual é o impacto financeiro e humano da mudança climática, que aumentará a cada ano. O relatório Nostradamus indica que eventos meteorológicos mais extremos pressionarão os gastos com infraestrutura, mesmo em países que não são diretamente afetados por guerras e refugiados do clima, ao mesmo tempo em que o aumento dos preços dos alimentos e outros efeitos sistêmicos afetarão o poder de compra das classes médias, que são a maior parte do público que paga pela cultura.

Somando-se todos os fatores, a previsão é de que, dentro de poucos anos, haja menos produções audiovisuais, mas de maior qualidade. Koljonen é categórica: “Eu diria que isso é inevitável. Há tanta coisa para assistir hoje, que fazer conteúdo medíocre é um desperdício do tempo de todos. Conectar filmes fracos com um público é simplesmente muito difícil. E por que assistir coisas que são ruins quando você vive em uma era de ouro de imagens em movimento?”.

A especialista defende a experimentação artística —”E não é um experimento se não pode falhar”—, mas argumenta que projetos em que já estão em fase de pré-produção e não são “ótimos” devem ser interrompidos. “É mais barato aceitar que você perdeu o custo de desenvolver o projeto do que perder o que custa para realmente fazer o projeto! E se isso parecer muito dramático, pelo menos pause a produção e continue reescrevendo o roteiro até que ele realmente funcione”, aconselha Koljonen.

Do ponto de vista do público, a análise indica que as diferentes plataformas e formatos se aproximarão cada vez mais. “Já é difícil ver a diferença de qualidade entre a TV e a narrativa cinematográfica. O curta-metragem está renascendo por sua performance na internet e novos formatos estão sendo desenvolvidos para mídias sociais, jogos e narração multiplataforma. Há muita inovação artística seguindo a inovação técnica, e os jovens estão encontrando caminhos de carreira completamente novos para se tornarem parte da narrativa audiovisual”, diz a autora do relatório. Sua preocupação, no entanto, é que a indústria cinematográfica tradicional não se interesse por essas novas oportunidades e torne-se irrelevante para o público ao longo do tempo.

“Cortes de financiamento afetarão mais os cineastas, e como eles também estão onde a linguagem estética do filme se desenvolve, é muito importante que eles não respondam à dificuldade voltando-se para dentro, mas buscando o público mais amplo possível através de histórias impactantes e relevantes. O público é mais sofisticado em seu gosto do que pensamos, e os jovens são realmente bons em seguir narrativas complexas! Eles só precisam se preocupar com as histórias que estão sendo contadas”, afirma a especialista.

Projeto Paradiso

Para amenizar o cenário local, o Instituto Olga Rabinovich lançou em março oProjeto Paradiso —a primeira entidade filantrópica voltada para o audiovisual no Brasil— que oferece bolsas e mentorias para profissionais dessa indústria, com o objetivo de “apoiar boas histórias contadas em filmes e seriados”. A iniciativa nasceu, segundo explica Josephine Bourgois, diretora executiva do Projeto, depois de uma pesquisa que identificou os principais gargalos no mercado brasileiro: falta investimento em tempo criativo, de maturação da proposta no roteiro e desenvolvimento. Além disso, outro obstáculo é a conexão das produções com seus públicos. “Investe-se muito em fazer filmes, mas eles não chegam às pessoas. Do total do orçamento, só 7% vai para a distribuição”, explica Bourgois.

Outro objetivo da iniciativa é conectar a indústria audiovisual brasileira com o panorama global. Para isso, o Projeto conta com uma incubadora de roteiros e oferece bolsas de formação em instituições como a renomada Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba. “O mundo inteiro está perguntando-se quais os produtos se darão bem nas salas de cinema na era da revolução streaming e como capitalizar essas janelas. Nosso papel é conectar o Brasil com esses debates para que, se não surgir uma solução, ao menos saibamos quais perguntas fazer”, diz Bourgois.