A mecenas que levou a obra de 16 brasileiros ao Museu Reina Sofía, na Espanha

á pouco mais de um ano, Patricia Phelps de Cisneros (Caracas, 1947) dividiu 202 obras de artistas latino-americanos entre seis museus internacionais entre os quais se incluía o MoMA, com 88 peças, e o espanhol Museu Reina Sofía, com 39. O museu espanhol é de novo beneficiado com um conjunto de 45 obras de 33 artistas surgidos a partir de 1990. A maioria é de artistas venezuelanos e de 16 artistas brasileiros. A colecionadora, que nunca quis catalogar quantas obras possui e seu valor econômico nos depósitos de Caracas e Nova York, cidade em que mora, confessa que fica muito feliz ao ver como hoje “nenhum museu de arte moderna e contemporânea pode mais ignorar a arte latino-americana”. “Foi um longo caminho, mas tenho uma sensação de missão cumprida”.

Museu Reina Sofía, localizado em Madri, afirma que essa nova doação enriquece notavelmente a coleção, ao mesmo tempo em que significa um impulso ao projeto de pesquisa realizado sobre os movimentos artísticos surgidos na América Latina da década de sessenta até hoje. No conjunto de obras se destacam peças da década de noventa e dos primeiros anos do século XXI. Esse caráter contemporâneo é justamente o menos representado dentro da coleção de arte latino-americana do museu.

Entre os artistas brasileiros cujas obras foram doadas está Rubens Gerchman (1942), um pintor e escultor profundamente influenciado pela arte concreta e neo-concreta e ligado à arte psicodélica e pop-art. Suas obras tratam de diversos temas, do isolamento urbano e alienação, até a localização geopolítica da América Latina, e a que chega ao museu espanhol é o poema BurntPerfume(1971), escrito quando Gerchman vivia em Nova York e participava dos movimentos artísticos de negação da pintura.

O escultor Angelo Venosa (1954) é outro dos brasileiros que estreia no Reina Sofía. Um dos poucos escultores a fazerem parta da Geração 80, movimento que revalorizou e os gestos espontâneos dos artistas, principalmente através da pintura. Sua obra incluída no conjunto doado é Autorretrato, de 1999.

Na obra titulada Sem (1992), outra que faz parte da coleção, o mineiro Marcos Coelho Benjamim (1952) utiliza materiais usados e superfícies ásperas e gastas para criar esculturas e instalações tridimensionais que valorizam a cultura popular de Minas Gerais, a tradição do estado no trabalho artesanal com a reutilização de materiais encontrados na rua. Já pernambucana Ester Grinspum (1955) procura em sua obra, tanto escultural quanto em seus desenhos, uma interioridade que se opõe à clareza e à lógica construtiva ligada à modernidade. Ela usa um vocabulário deliberadamente subjetivo, constituído tanto por ícones de sua própria criação como por aqueles da história da arte. Dois trabalhos em papel de 1997 compõem a doação para o museu espanhol.

Valeska Soares (Belo Horizonte, 1957) destaca-se na vanguarda brasileira desde o final dos anos oitenta até início dos anos noventa. Desde 1992, seu trabalho está posicionado em múltiplas plataformas, com foco em questões como o mundo globalizado na arte, geografia, identidade cultural e nacional, disciplina ou forma. Sem título (from Detour), de 2005, e Wishes 22 (1996) são as obras que passaram a fazer parte da coleção espanhola.

O trabalho do gravador e escultor Mauricio Ruiz (1958) constitui-se do constante questionamento que o artista faz a si mesmo por meio do material e as cores que ele proporciona, investigando os mecanismos que usamos para reconhecer-nos uns aos outros, seja em nossas tradições, em uma comunidade ou simplesmente como um indivíduo, como expressa a obra de 1995 doada ao museu.

O pintor, desenhista e mestre da gravura Massa Paulo (1959), um dos principais pintores da cena de São Paulo na década de 1990, é outro dos artistas nacionais que integram a coleção. Ele trabalha a abstração desde uma perspectiva afetiva e poética, como demonstra o quadro de 1995 que compõe a coleção. Já Fernanda Gomes (1960) utiliza materiais recicláveis, móveis abandonados ou objetos do cotidiano e suas obras estão intimamente relacionadas aos espaços em que se desenvolvem. No caso da obra de 1994 em exposição, ela compôs a obra usando apenas papel e fio.

O pintor e escultor paulistano Nuno Ramos (1960) é um artista versátil que utiliza diferentes suportes e materiais que combinam gravura, pintura, fotografia, instalação, poesia e vídeo. O livro-arte Balada (1995) é um exemplo disso. A mineira Rosângela Rennó, entretanto, (1962) usa fotografias de arquivos públicos e privados para questionar a natureza da imagem e seu valor simbólico, como em Sem título (XXYX) -in oblivionem, de 1994. Muito interessada na imagem descartada e sua apropriação, Rennó tenta imitar os hábitos de uma colecionadora, reunindo imagens diferentes.

O paulista Edgard de Souza (1962) experimenta com a criação de objetos tridimensionais, desenho, gravura e pintura, produzindo objetos que exploram a forma humana e aproximando-se de uma imaginação surrealista que provoca, ao mesmo tempo, sensações de familiaridade e estranhamento. Já Paulo Climachauska (1962) combina desenho e pintura e investigar a relação entre arte, economia e sociedade e argumenta que a linha não é um traço, mas uma sequência matemática que nos permite refletir sobre as conexões entre o valor do trabalho artístico e sua função social. Rosana Palazyan (1963) experimenta com várias técnicas que atravessam diferentes escalas —desde bordado e desenho até instalações urbanas— para criar trabalhos que exploram como a narrativa é construída sobre os pequenos detalhes. Em sua obra de 1994 doada ao museu, utilizou tecidos queimados e bordados.

O trabalho de Irã do Espírito Santo (1963) mostra uma sutil subversão do minimalismo através de elementos abstratos do cotidiano. Como em Tomogramas (1995), Espírito Santo lida com os atributos táteis dos materiais escolhidos e seus contornos sensuais de simples formas abstratas no espaço.

Explorando a dicotomia entre o original e a série (entre o contínuo e o descontínuo), as pinturas esculturais de Marcia Thompson (1968), como Transparente(1996) reclamam um olhar não uniforme, capaz de perceber as singularidades dentro de um todo aparentemente homogêneo. Já José Damasceno, último brasileiro a entrar na coleção, criou uma nova linguagem, sem sacrificar, no entanto, a influência de seus antecessores, como Lygia Clark, Hélio Oiticica ou Cildo Meireles. Ele combina uma poética sensorial e interativa com um universo pessoal, marcado por suas referências no surrealismo e o uso frequente do humor. Faz parte da coleção com os trabalhos 2 estudos sobre 1 dimensão perdida (1996) e A carta (nó) (2005).

 

6.ª edição da Museum Week

Aviso às galerias, museus, centros de ciência, instituições e associações culturais!

A partir de 13 de maio, a web social une-se à #MuseumWeek e às hasthags da 6.ª edição. Uma sinergia única no mundo, fonte de tráfego, diversidade e criatividade.

A #MuseumWeek convida a incentivar as experiências de museu mais transversais, lúdicas e educativas, e a comunicá-las nas redes sociais. Em 2018, cerca de 5.000 instituições culturais participaram no evento em 120 países, sendo que o ano de 2019 é bastante promissor. Esse convite dirigese particularmente às regiões sub-representadas na participação, nomeadamente a África (0,6%), a América latina (5%) e a Ásia (8%).

Objetivo: mobilizar amadores e profissionais em torno da Cultura, dar visibilidade, abertura internacional, suscitar o interesse dos visitantes, ouvir o público, enriquecer as bases de dados, inventar animações, defender valores.

A 6.ª edição será pontuada com eventos transmitidos em direto e, nos comandos da social media news room da #MuseumWeek, 12 community managers irão encarregar-se das publicações 24/24.

Este ano será ainda marcado pelo apoio a uma causa maior: a do lugar das mulheres na cultura, ontem, hoje e amanhã. E tal será possível ao longo de toda a semana com a hashtag #WomenInCulture

As informações sobre a inscrição para a #MuseumWeek 2019 já estão disponíveis em português!

http://museum-week.org/wp-content/uploads/2019/04/Press-Release-PT.pdf?fbclid=IwAR1TBgIwBre9tegpqShS8w9MDwnUyy8_BrvUR7sEfj6E1g416K_5g-8VRqw

 

IPHAN disponibiliza Cadernos temáticos de Educação patrimonial

Baixe grátis em:

http://portal.iphan.gov.br/publicacoes/lista?categoria=30&busca=&pagina=1&fbclid=IwAR1YiHYuFWHTuzSvbTz9xolf1Y2ax-qgA6XNobS_Ya8Gz0igULPAvmtqh3c

MATCHFUNDING BDNES PATRIMÔNIO CULTURAL

Abriu agora a plataforma para inscrições ao MatchFunding, que vai selecionar projetos de patrimônio cultural com a criação de um fundo de R$ 4 milhões de reais pelo BNDES e o financiamento coletivo de R$ 2 milhões de pessoas físicas doadoras.

Uma parceria super potente entre BNDESBenfeitoriaSITAWI e Museu Vivo.

O programa de Matchfunding BNDES+ vai selecionar projetos capazes de deixar legado para Patrimônios Culturais Brasileiros, capacitá-los em mobilização através de crowdfunding e TRIPLICAR sua arrecadação!

São R$ 4 Milhões de fundo para dois anos de ação – e seleção de projeto todo mês, até 15/08. Quanto antes enviar, mais chances de ser contemplado.

Museus e instituições culturais poderão se inscrever dentro das regras do edital detalhado.

Mais informações em:  http://benfei.to/BNDESmais

Ranking mundial de visitação em 2018 traz exposições brasileiras

A revista britânica The Art Newspaper divulgou o resultado de sua pesquisa anual sobre as exposições e museus mais visitados no ano de 2018 e o Brasil aparece na lista com 64 exposições. A mostra FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ), de 13 de abril a 4 de junho de 2018, atraiu 264.922 visitantes e aparece na 11ª colocação mundial das exposições mais visitadas e em terceiro lugar no ranking TOP 10 Contemporary.

Desde a primeira vez que participou da pesquisa, ainda em 2011 com as mostras realizadas em 2010, o Brasil vem se destacando. Entre os 100 museus de arte mais visitados em 2018, cinco são brasileiros: o CCBB-RJ, que recebeu 1.388.664 visitantes em 2018, ocupando o 42º lugar; o CCBB-Brasília, com 1.146.995 visitantes, na 57ª colocação; o CCBB-SP, com um público de 931.980 pessoas (85º lugar); o Instituto Tomie Ohtake, com 898.147 visitantes (92º lugar), e o CCBB-BH, com um público de 893.772 visitantes (93º lugar).

Outras instituições brasileiras estão presentes na lista de exposições mais vistas. Além das citadas acima, estão ainda a Caixa Cultural Brasília, a Caixa Cultural São Paulo, a Casa Fiat de Cultura, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República Honestino Guimarães, o Museu Oscar Niemeyer e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

A publicação destaca que, a cada ano, o CCBB tem aparecido regularmente entre as 20 mais visitadas e que, entre outros fatores, a gratuidade nas exposições tem sido fator atrativo para o público. Nos rankings temáticos, o CCBB-RJ também se destaca com a mostra Ex África, realizada de 20 de janeiro a 26 de março de 2018, com 261.647 visitantes. Já a mostra Museu do Futebol na Área, realizada no CCBB-BH, de 15 de agosto a 15 de outubro, atraiu um público de 160.983 pessoas.

Na categoria Top 15 big ticket attractions, a 11ª Bienal do Mercosul: Triângulo do Atlântico, em Porto Alegre, atraiu um público de 626.357 pessoas.

Destaque para a Arte Brasileira

No ranking figuram também duas exposições que mostravam trabalhos de artistas brasileiros: a mostra Tarsila Do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York entre 11 de fevereiro e 3 de junho de 2018, que atraiu 258.313 visitantes; e a Works from Argentina and Brazil, no Getty Center de Los Angeles, de 16 de setembro de 2017 a 11 de setembro do 2018, com 255.004 visitantes.

Confira o encarte (PDF) especial da publicação britânica The Art Newspaper – Visitor Figures 2018, que apresenta e analisa os números de visitação a museus e exposições em todo o mundo.

Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)

Mural de Eduardo Kobra é eleito o maior grafite do mundo pelo Guinness Book

O painel “Etnias” desenvolvido pelo artista Eduardo Kobra foi reconhecido como o maior grafite do mundo pelo Guinness Book, o livro dos recordes. A obra está exposta no Boulevard Olímpico, na Praça Mauá, centro do Rio de Janeiro.

O mural retrata cinco rostos de povos indígenas de diferentes continentes representando os anéis olímpicos. Segundo o jornal Extra, os painéis apresentam rostos envelhecidos do povo huli, da Nova Guiné, mursi, da Etiópia, kayin, da Tailândia, supi da Europa, e os índios tapajós, das Américas.

Ao todo, a arte tem cerca de 15 metros de altura e pouco mais de 170 metros de largura e foi feita em 45 dias. Acompanhe o vídeo da obra.

Dia Internacional da Língua Portuguesa – edital para seleção de propostas para o Museu da Língua Portuguesa

Em comemoração ao seu 13º aniversário, o Museu da Língua Portuguesa abre um edital para seleção de propostas para a programação cultural e educativa do Dia Internacional da Língua Portuguesa, que contará com três dias de atividades artísticas e culturais na Estação da Luz, em São Paulo, nos dias 5, 6 e 7 de maio. As inscrições vão até o dia 10 de abril de 2019, e podem participar artistas, educadores, escritores e coletivos. O Museu espera receber propostas de linguagens como literatura, teatro, música, performance, contação de histórias ou artes integradas, que celebrem ou reflitam sobre a pluralidade do idioma e as formas que ele assume na arte ou no cotidiano.

O Dia Internacional da Língua Portuguesa, comemorado em 5 de maio pelos integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), será celebrado com três dias de educação e cultura com programação gratuita e aberta ao público. No ano que antecede a retomada das atividades do Museu da Língua Portuguesa em sua sede, a programação terá como tema “Escola, Museu e Território”.

A celebração do Dia Internacional da Língua Portuguesa é uma realização do Museu da Língua Portuguesa, da Fundação Roberto Marinho e do Governo do Estado de São Paulo, com apoio da EDP, Grupo Globo e Itaú Cultural.

Baixe o regulamento completo! Depois, clique aqui para acessar o formulário de inscrição.

Participe!

Regulamento_Dia_da_Lingua_Portuguesa

Clima de tensão entre produtores de cinema após ameaça de suspensão de repasses

Pânico — esta é uma das palavras mais ouvidas entre os profissionais do audiovisual desde a semana passada, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que a Agência Nacional de Cinema (Ancine) suspenda os repasses de recursos para o setor. Órgão de fomento da produção de filmes e séries no Brasil, a Ancine está sob a mira do tribunal, que impõe que a agência apresente, em até 60 dias, uma nova forma de fiscalizar as contas dos projetos submetidos a ela. Nesse período, o repasse de verbas está congelado.

Com isso, realizadores e produtores com filmes em andamento não sabem se vão conseguir concluí-los. Outros temem sequer começar a fazê-los. Na raiz da tensão está a possibilidade de a torneira que irriga a produção de cinema e televisão ser fechada.

— Quase toda a produção audiovisual brasileira pode parar. Sem contar o prejuízo cultural: serão mais de 200 mil desempregados e uma perda de quase R$ 20 bilhões, que é o que a indústria movimenta no país. Esperamos que a situação se normalize o mais rapidamente possível — diz Jorge Furtado, diretor de “Rasga coração” (2018) e “O homem que copiava” (2003).

FALTA DE INTIMIDADE

A decisão do TCU é baseada numa auditoria feita em 2017, quando o tribunal encontrou irregularidades no processo de fiscalização das contas dos projetos aprovados pela Ancine.

De acordo com a jornalista Ana Paula Sousa, doutora em Sociologia da Cultura, o relatório do TCU mira a Instrução Normativa (IN), de 2015, que criou o modelo de prestação de contas chamado “Ancine + Simples”. Essa IN, na visão do TCU, prevê um modelo de prestação de contas inconstitucional. Alguns dos argumentos técnicos (reforçados pela auditoria de 2017) parecem até fazer sentido.

— Os auditores pecam, em alguns momentos, pela falta de intimidade com o setor audiovisual. Mas me parece que há, no relatório, evidências de falhas no processo de prestação de contas dentro da agência. E isso não é algo que possa ser desconsiderado quando se fala em recursos públicos. O que é preocupante é que as exigências do TCU, feitas no acórdão, não parecem factíveis, sobretudo porque o passivo de prestações de contas é enorme. Mas as conversas em busca de um acordo razoável estão acontecendo — diz ela.

AINDA SEM NOTIFICAÇÃO

O diretor-presidente da Ancine, Christian de Castro, não estava disponível ontem para entrevista. Através de sua assessoria de comunicação, o órgão argumenta que ainda não foi notificado (o julgamento aconteceu na semana passada, e o TCU tem um prazo de 15 dias para notificar a agência reguladora). E mais: diz já ter entregue um plano ao tribunal, que ainda não foi analisado. No meio desse imbróglio, diretores e produtores estão apreensivos.

— Ganhei um edital em 2018, e agora aguardo assinar o contrato — afirma Felipe Sholl, diretor de “Fala comigo” (2016). — O problema é que não sei quando e se isso vai acontecer. No momento, sabemos pouco. Só podemos ter calma, dialogar e nos articular para defender nossos direitos.

Hoje, o grosso do cinema brasileiro é sustentado por duas fontes de financiamento. Uma é a Lei do Audiovisual, pela qual empresas financiam obras via renúncia fiscal. Entre elas estava a Petrobras, que já anunciou corte de investimentos na cultura.

A outra fonte — e mais importante — é o FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), da Ancine. Em 2017, segundo a agência, 75 obras cinematográficas contempladas pelo fundo foram comercializadas no país. Juntas, tiveram um público de 8,3 milhões e renda de R$ 113,4 milhões Em 2018, o FSA investiu mais de R$ 1,2 bilhão no setor. É justamente essa torneira que corre o risco de ser fechada.

— Estou muito preocupado, porque meu primeiro longa de ficção, que já comecei a idealizar, pode não sair. Eu não sei o que pode acontecer — resume Cristiano Burlan, cujo documentário “Elegia de um crime” está atualmente em cartaz.

Todos os profissionais procurados pelo GLOBO relataram a mesma sensação de incerteza. Alguns lamentam a postura da Ancine diante do imbróglio. Acham que a agência precisa defender o setor com mais empenho.

Os próprios funcionários do órgão reclamam de falta de transparência e diálogo. Em carta aberta, a Associação dos Servidores Públicos da Ancine (Aspac) afirma que o plano de ação apresentado ao TCU foi “forjado sem a devida transparência com o setor e com a sociedade.”

ALEXANDRE FROTA INTERVÉM

O deputado Alexandre Frota (PSL-SP), que participou ontem de uma sessão na Comissão de Cultura da Câmara, informou por meio de seu perfil nas redes sociais que protocolou na Corregedoria Geral da União um pedido de afastamento do presidente da Ancine, Christian de Castro. “E vou no TCU para tentar agilizar o processo a favor do Áudio Visual (sic)”, diz ele na mensagem.

Diretor de “Prova de coragem” (2015), Roberto Gervitz encara o momento como “mais uma situação absurda e kafkiana”:

— É importante que os ministros do tribunal entendam as especificidades da atividade cinematográfica. Para quem não é do meio, não é muito fácil compreender a produção de um filme. Há uma flutuação em certas despesas, mesmo com um rigoroso planejamento — pondera Gervitz.

 

Slam ganha força nas periferias do Brasil e cria geração de poetas urbanos

Aos 21 anos, Nega Lu descobre poesias em coisas que nunca vira antes. Do cabelo ao colar étnico que exibe orgulhosamente no peito, tudo é inspiração para suas criações. As palavras não saem da boca como se fossem um simples ato de comunicação. Transformam-se em política. Brotam guerreiras do corpo de mulher negra e periférica da cidade de Santa Maria.

Aos 27 anos, Araian arrancou da gaveta dois livros de poemas que guardou por uma década, quando lutou contra depressão. Hoje, as frases de sua autoria correm pelo corpo como se fossem o próprio sangue. Intensa, é capaz de contagiar a plateia nos primeiros instantes de performance poética. As ideias dão identidade à miscigenação de negros e índios que acolhem a trajetória feminina de luta fincada na Ceilândia.

Nega Lu e Araian se enchem de pertencimento quando se identificam como poetas do slam (em inglês, batida) – movimento de rua nascido no círculo operário norte-americano, na década de 1980, que contagiou a França no começo do século XXI e, agora, espalha-se em velocidade pelas periferias brasileiras. “Houve um engajamento feminino imediato no slam porque as expressões culturais de rua são machistas e tentam pôr as mulheres como coadjuvantes da cena”, aponta Nega Lu, graduada em Assistência Social.

Ensinam pretos e pretas a como não ser
Como não se vestir e não falar
Até onde não frequentar
Roubam nossa identidade
Nos empurram à subalternidade
Não somos quem somos de verdade

Versos de Nega Lu

Universo feminino

O slam trata de temas mais ligados ao universo feminino, que geralmente não têm espaço em outras manifestações artísticas do movimento de rua, como o hip hop. Os chamados “slammers”, poetas de slam, falam livremente sobre misoginia, homofobia e machismo. “Uma das poesias mais fortes que recito fala de feminicídio. Certa vez, uma das mulheres que assistiam à performance ficou muito tocada porque circulava com o papel da medida protetiva contra o marido na bolsa”, revela Araian.

“Os poetas têm um papel fundamental de conscientização da plateia, que aumenta de acordo com a militância de cada um”, conta Will Junio, poeta e professor, que trouxe a primeira batalha de slam ao DF, a Slam-déf, em 2015.

Nessa época, Will conheceu a atriz e ativista cultural Roberta Estrela Dalva, que trouxe, junto ao grupo teatral Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (SP), o slam para o Brasil, produzindo as primeiras batalhas na capital paulista. “Foi paixão à primeira vista. Ela me ensinou as regras, mostrou vídeos e, de repente, fizemos a primeira edição em Brasília. Ali, já fiquei entre os primeiros colocados”, lembra-se o poeta, que foi classificado para seletiva nacional e esteve num mundial sediado no Rio, quando viu o mar pela primeira vez.

Ambiente de escuta

O slam é organizado em batalhas competitivas com júri popular (escolhido na hora) e etapas regional, nacional e internacional (realizada em Paris). O clima, no entanto, não é como as conhecidas pelejas de “sangue” dos MCs, quando no improviso, um tenta “desmerecer” o outro, atingindo os “pontos fracos” do adversário. No slam, a voz é a arma do poeta. E a emoção, munição.

O ambiente das batalhas é de aprendizado e de escuta. A palavra é soberana. Não há melodias que sobreponham os versos. São três poesias de até três minutos cada uma, ditas na crueza do silêncio. “No máximo, uma música ambiente, em algumas batalhas, para entrada dos slammers”, conta o DJ Chris, organizador do Slam DF.

Numa batalha, os poetas entram em cena com a voracidade de quebrar o silêncio e lançam seus versos que não necessariamente estão organizados em métricas. Podem ser completamente livres. A nota é uma consequência. O que vale é a liberdade de expressão em dizer o que sai da verdade de cada um. “O slam respeita a diversidade e a interlocução de vários sotaques”, pontua Nega Lu, que organiza o Poetisas em Cena, slam de Brasília.

Literatura na rua

Quem assiste à batalha de slam tem a sensação de que a poesia saiu dos bem-comportados saraus para se esbaldar pelo mundão das ruas. Há uma mudança do estado corporal de cada slammer. Eles gesticulam, circulam, quase dançam com a musicalidade das próprias palavras. Araian busca intuitivamente o teatro para impulsionar as muitas vozes que habitam em sua poética. Em nenhum momento, deixa a emoção esvair porque a carrega nos olhos.

O slam é engajador porque habilita jovens, que socialmente estão colocados à margem, como criadores potentes de suas narrativas poéticas. Tornam-se autores e, alguns, interessam-se pela poesia, antes vista como algo distante e estático. Assim, as ruas viram uma gigante sala de aula de literatura, onde se aprende num processo livre. Em São Paulo, a arte está dentro das escolas públicas.

Como surgiu o slam

Poeta de Chicago (EUA), Mark Kelly Smith criou o slam na década de 1980 porque acreditava na poesia como uma forma de comunicação imediata entre as pessoas. Via a narrativa poética “morta” nas academias e salas de aula. Resolveu assim criar sessões de microfones abertos para a poesia falada. Virou uma febre. Em 1990, ele organizou a primeira competição nacional de slam poetry, que se espalhou pelo país e pelo mundo, tendo a França como um dos primeiros países a abraçar o movimento (hoje, há 500 comunidades registradas no mundo).

No Brasil, o slam chegou primeiramente, em São Paulo, trazido por Roberta Estrela Dalva, que, ao lado de Tatiana Lohmann, dirigiu o documentário “Slam: a voz de levante” (2017), vencedor do Festival do Rio e do Festival Internacional Mulheres no Cinema. Que tem recursos da Ancine.

Dia Mundial da Poesia

O Dia Mundial da Poesia celebra-se em 21 de março e foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO, em 16 de Novembro de 1999, com o objetivo de promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia internacionalmente.No Brasil, o dia nacional é comemorado em 31 de outubro, nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Tainacan: uma solução gratuita para criação de acervos digitais

O que os museus do Ouro, Histórico Nacional, de Ciências da Universidade de Brasília (UnB) e a revista Filme Cultura têm em comum? Essas e mais de 100 entidades usam o Tainacan, ferramenta gratuita feita em parceria com o antigo Ministério da Cultura (hoje Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania) para disponibilizar acervos e coleções digitais de forma fácil, amigável e conectada às redes sociais. O Tainacan foi destaque na edição 2019 da World Digital Library Conference.

O sistema foi montado em um plugin para WordPress, uma ferramenta gratuita e bastante disseminada no mercado de criação de sites. Ao incluir essa extensão em qualquer site WordPress, o responsável consegue importar e criar catálogos do acervo cultural, além de disponibilizar essa informação na internet e nas redes sociais.

O nome de batismo do projeto, Tainacan, se refere à deusa tupi das constelações. Se a divindade ligava as estrelas, o projeto repete a missão ao permite montar esses repositórios culturais digitais e até integrá-los a outros acervos semelhantes. O professor da UnB Dalton Martins é o criador da ferramenta. Abaixo, ele explica os detalhes do projeto:

Como surgiu a ideia de criar esse plugin?
A ideia do projeto nasceu de uma demanda do então Ministério da Cultura, no ano de 2014, que estava desenvolvendo uma política nacional de acervos digitais e iniciou um projeto em cooperação com a Universidade Federal de Goiás. Eu estava lá como docente para pesquisarmos soluções tecnológicas no modelo de software livre que pudessem ser indicadas às instituições culturais brasileiras. A ideia era ser algo de baixo custo para implantação e que, ao mesmo tempo, pudesse se adaptar às necessidades técnicas de organização de acervos e coleções digitais.

O que se identificou à época era que não havia uma solução livre que pudesse atender as demandas de gestão de coleções e, ao mesmo tempo, fosse amigável e interoperável com redes sociais para ampliar o potencial de socialização em rede dos objetos culturais. Desse modo, decidiu-se por aproveitar o modelo WordPress de desenvolvimento e construir um plugin para transformar o WordPress num repositório digital. Vale dizer que o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2016, se interessou por adotar a solução, considerando que eles já estavam tentando desenvolver uma solução própria e entenderam que o Tainacan atendia suas necessidades.

Por que a ferramenta foi construída como um plugin para WordPress?
Pela flexibilidade da arquitetura do WordPress, que permite que se faça um plugin para implementar funcionalidades de repositório e um tema para construir uma interface gráfica amigável com o usuário. Isso nos permite desenvolver funcionalidades sem perder compatibilidade com o WordPress quando o mesmo evolui e lança novas versões, o que pode ser acrescentado ao Tainacan automaticamente.

E também pelo mercado de tecnologia: há muitos desenvolvedores em WordPress no Brasil, o que garantiria que a tecnologia fosse mais facilmente socializada e não ficassem as instituições culturais dependentes de uma única empresa ou universidade para dar manutenção e atualizar o software, quando fosse necessário.

Qual foi a resposta da comunidade? Quantas instituições usam o plugin em seus acervos?
Tem sido muito boa, considerando que o Tainacan tem sido adotado por vários museus, centros culturais e instituições memoriais pelo Brasil e pelo exterior. O retorno que temos recebido é que o Tainacan se apresenta como uma ferramenta flexível e fácil de operar para resolver os problemas mais simples e básicos de formação de coleções e repositórios digitais. Nós já tivemos mais de 1.000 downloads do plugin e estima-se, por contabilidade do próprio WordPress, que existem mais de 100 repositórios ativos com o Tainacan.

Na sua opinião, o que é preciso para difundir mais os acervos em rede das instituições culturais no Brasil?
O incentivo e a articulação das instituições culturais em torno de modelos de governança e gestão dos acervos a partir de uma política nacional que apoie as instituições a adotarem padrões técnicos, semânticos, legais e operacionais para a organização de seus projetos e processos de trabalho. A digitalização e gestão de acervos digitais é algo que envolve várias dimensões e uma enorme demanda técnica para as instituições culturais, sendo que muitas delas ainda não estão capacitadas ou possuem estrutura suficiente para conduzir tais tipos de projeto. É fundamental criar marcos de referência e instruções normativas que apoiem as instituições nessa direção.

Quais são as mais importantes funcionalidades atuais desse plugin? E quais funcionalidades estão previstas?
As funcionalidades mais importantes são a possibilidade de customizar modelos de metadados, criar filtros de busca e consulta de forma dinâmica e fácil interoperabilidade com redes sociais. É possível criar e importar taxonomias de forma dinâmica e importar coleções de outros softwares – tais como Dspace, Omeka –, exportar e importar dados usando o protocolo OAI-PMH, fornecer suporte a tratamento de imagens com a solução de interoperabilidade de imagem IIIF. A ferramenta tem suporte ao uso de Elastic Search para tratamento de dados massivos, entre outros. Estão previstas a possibilidade de configurar os dados a partir de entidades semânticas e exportar as coleções em formato RDF, além de interconexão com Wikimedia para publicar dados e imagens na ecologia Wiki (Wikipedia, Wikimedia e Wikidata).