Mais da metade dos brasileiros acha os museus monótonos. Artistas e curadores dão ideias para ‘espanar o pó’ das instituições

Eles são “monótonos”, “previsíveis”, “elitizados” e pouco visitados. Para a maioria das pessoas ouvidas numa pesquisa inédita do Oi Futuro , os museus, definitivamente, precisam melhorar sua imagem. Metade dos 600 entrevistados de “Museus: Narrativas para o futuro” acha que estamos falando de espaços para ir apenas uma vez. Foi, tá visto. E, apesar das muitas selfies recentes diante de fachadas arrojadas, 81% ainda acreditam que museu ocupa prédio histórico e de arquitetura clássica.

— Não é o que nós, ativistas do setor, gostaríamos de ouvir — reconhece a museóloga Bruna Cruz, coordenadora da pesquisa, contando que os resultados serão compartilhados com as redes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e do Conselho Internacional de Museus (Icom). — Precisamos trabalhar para provar o contrário, nos comunicar melhor e descobrir, juntos, como engajar novos públicos.

Afinal, quem nasceu para musa não deveria jamais perder o brilho. Como lembra Marcello Dantas, um dos mais ativos curadores do país e com projetos em vários lugares do mundo, “museu” vem do grego “mouseion”, que significa “templo das musas” .

— Justamente por isso, ele é um lugar de inspiração, de provocar ideias, não um depósito de objetos— diz.

Legal não é superficial

Mas o que fazer para espanar a poeira que, como a pesquisa revela, criou camadas de estereótipos sobre os museus? Como aponta Roberto Guimarães, gerente executivo de Cultura do Oi Futuro (onde funciona oMuseu das Telecomunicações ), quando se fala em centro cultural, a percepção dos entrevistados é diferente:

— Talvez o que a pesquisa sublinhe seja isso, que a palavra, o conceito, na nossa cultura, ainda está muito ligado a velho, mofo, antigo. É uma questão de nomenclatura. Quando dizemos que algo é velho, dizemos que é “coisa de museu”. A mudança passa pela educação. O desafio é fazer com que as pessoas achem que o museu pode ser uma extensão da casa delas, fazer com que criem uma relação afetiva e de pertencimento com o que está sendo visto.

Para o arquiteto, cenógrafo e curador Gringo Cardia é preciso começar cedo. Quando projeta um museu, ele diz, seu foco é claro.

— Meu alvo é um garoto de 13 anos — diz. —Ele tem que gostar de ir, achar que é bacana. Museu é para perpetuar o legado, e quem vai fazer isso são as crianças. Então, temos que criar uma coisa lúdica, com diversão, humor e participação da família. As pessoas querem se sentir dentro da história, querem saber se o museu tem a ver com elas.

Gringo gosta de fazer isso usando projeções e vídeos. Um exemplo é a Casa do Rio Vermelho, em Salvador. A antiga residência de Jorge Amado e Zélia Gattai, que ele transformou em memorial, reúne tanto material que é impossível ver tudo num dia só. E a ideia é essa mesma.

— Faço de propósito. Meu interesse é que as pessoas se tornem habitués daquele espaço — diz.

Interatividade, imersão, teatralidade, jogos, conexão, tecnologia… O dicionário dos museus (a propósito: eles são 3.785 no Brasil segundo o Ibram, e 18 de maio é o Dia Internacional deles) foi ganhando novos conceitos. Para Gringo, porém, muita coisa ainda é confundida com superficialidade.

—Recebo críticas de quem diz que meu trabalho é superficial, que é a superficialidade da sociedade do espetáculo. No mundo inteiro os museus estão mudando, e o Brasil está demorando a aceitar isso, as grandes instituições ainda têm restrições a novas linguagens, ficam arraigadas a conceitos acadêmicos muito rígidos. Fica uma pompa que não tem nada a ver. O lugar está decadente e continuam com aquela pose.

Só botão não é solução

Marcelo Dantas faz coro.

— Não adianta acervo incrível, se não traz as pessoas para ver. Este é um problema do pensamento de muitas instituições. Falta poesia e sobra burocracia — comenta o curador, que apesar de explorar linguagens digitais em seus projetos, não as vê como único caminho. — Imagine o tédio se todos os museus só tivessem conteúdo virtual. Interatividade não é ter botão para apertar, é ser inclusivo, se conectar com o público.

A diretora Bia Lessa concorda que “o museu tem que se abrir para a cidade” e “ser visto por todos”, mas faz ressalvas em relação ao uso das novas tecnologias para atrair visitantes:

— Não acho que museu tenha que ser um parque de diversões, um lugar só de entretenimento. É um espaço de reflexão, sagrado. Tem que ter todas as linguagens, passadas, futuras, contemporâneas, mas não penso que o simples fato de ter tecnologia signifique modernizar.

Ou, como defende a holandesa Danielle Kuijten, vice-presidente do Comitê para o Desenvolvimento de Coleções do Conselho Internacional de Museus (Icom), o museu do futuro deve ser um espaço que conecte passado e presente, capacitando as pessoas a buscar respostas e promover ações.

— A tecnologia é um recurso para atingir o público, mas sem abrir mão dos conteúdos analógicos.

Todo este debate leva a outra conclusão sobre a pesquisa do Oi Futuro , que será divulgada na quarta-feira.

— A pessoa do século XXI quer ter uma experiência no museu: ver, tocar, interagir, deixar uma marca — diz Roberto Guimarães.

Portas abertas para outras experiências

A pesquisa do Oi Futuro destaca quatro tendências para museus que querem se conectar melhor com o público:

1. Oferecer experiências novas e surpreendentes entre os objetos e o público, “principalmente em coletivos, pois as pessoas preferem visitar museus com outras pessoas”. 2. Suprir o desejo de participação do visitante. 3. Dar caráter de experiência inédita a cada visita ao museu. 4. Posicionar o museu como opção permanente de lazer e entretenimento da comunidade em que atua.

O próprio Oi Futuro anuncia novidades no Museu das Telecomunicações. No segundo semestre, o espaço vai passar por uma reforma e, além de aumentar seu acervo, ampliará o leque de atrações interativas. Entre elas, está uma sala onde vão entrar até seis pessoas dispostas abrir suas redes sociais para que outras possam visualizar.

O Museu de Arte do Rio (MAR) também tem vai ganhar um novo espaço imersivo no primeiro andar , com a instalação digital “Fluxo”, desenvolvida pelo estúdio SuperUber. Ela vai ser aberta junto com a nova exposição “Rio dos navegantes”, no dia 25. “Fluxo” fica em cartaz até novembro. Depois a sala vai receber novos projetos de medialab do museu.

— Este espaço pode dialogar com as outras exposições, mas não precisa ter obrigatoriamente uma narrativa. É uma experiência sensorial, queremos provocar o público de outra maneira — frisa Eleonora Santa Rosa, diretora-executiva do MAR, que se reuniu com grupos de jovens para orientar a estratégia do museu. — Temos que usar a maior variedade de linguagens, até para explorar ao máximo nossa coleção.

Discussão mundial

Os temas que mobilizam os especialistas no Brasil estão sendo discutidos no mundo todo. No mês de outubro, em Amsterdã, o Museu do Amanhã participará do primeiro encontro dos Museus Orientados para o Futuro, que contará com instituições como o Futurium, de Berlim, e o Climate Museum, de Nova York.

— Falta conexão entre os gestores. Não importa se é um museu contemporâneo e outro mais tradicional, nossas questões são as mesmas — analisa Ricardo Piquet, diretor-presidente do IDG, organização social responsável pelo Museu do Amanhã . — Quando pensamos no museu do futuro, não estamos falando apenas de tecnologia. Os acervos físicos sempre terão espaço, mas é possível contar aquela história de uma forma melhor com o auxílio de um conteúdo audiovisual ou uma holografia.

Criador do Festival Multiplicidade, que nasceu em 2005, misturando arte e tecnologia, o artista visual Batman Zavareze lembra que a edição que teve recorde de público (cerca de 40 mil pessoas em um mês), no ano passado, foi com uma “instalação extremamente analógica”: uma escultura feita com 32 quilômetros de durex, onde podiam entrar até 20 pessoas de uma vez.

— A sensação era de estar entrando dentro de um casulo. Entravam pequenos com seus avós e todos chegam a uma linha mágica e viravam criança por algum momento. São narrativas poéticas, que geram um retorno de contato, de afeto, que nenhuma tela pode dar — ressalta Zavareze.

Tunga e baleira

Pesquisador do mundo das novas tecnologias, Zavareze admite que tem “forte sedução pelo modelo tradicional de museu”. Mas acha que fechar as portas às novas mídias, hoje, seria como “negar a respiração”:

— O esqueleto de uma baleia em tamanho natural é impressionante e sempre será. Uma escultura do Tunga é impressionante e sempre será.Mas nada impede que se crie novas experiências, novas ferramentas para contar velhas histórias. O museu tem esse papel de trabalhar as narrativas.

 

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