Memória Local na Escola conta história das cidades pelos olhares de crianças

Há muitos jeitos de se conhecer a história de uma cidade; é possível fazê-lo visitando museus, esmiuçando o tracejado de mapas ou vislumbrando fotos antigas. Mas a cidade também é a memória local de seus moradores, e emerge nas andanças do carroceiro, na fala da moradora centenária ou na lembrança de uma criança.

É olhando para cidade que se constrói nas palavras e memórias de seus habitantes que nasce o programa Memória Local na Escola. Iniciativa do Museu da Pessoa em parceria com o Instituto Avisa Lá e patrocínio da Ultragaz, o projeto convida crianças de escolas públicas a contarem a história de cidades entrevistando seus habitantes e ilustrando suas reminiscências.

Em 17 anos, o projeto já rodou por 70 municípios brasileiros, construindo exposições e livros a partir da contação de histórias: “O Museu da Pessoa sempre trabalhou com a história de vida de pessoas. E quando você as escuta, elas geralmente falam de um lugar, mesmo que não percebam. É daí que nasce a ideia do projeto”, relata Sônia London, diretora-executiva do Museu da Pessoa.

Metodologia de coletar lembranças

O projeto Memória Local na Escola funciona numa tríade entre o Museu da Pessoa, que entra com a experiência em coleta de memória e escuta de pessoas, o Instituto Avisa Lá, com prática em formação de professores, e as Secretarias Municipais de Educação, que articulam o contato com as escolas públicas onde por oito meses ocorrerá o projeto.

“A metodologia de coleta de memória é feita em três pilares: o registro da memória, sua organização – torná-la acessível, não como um veículo, mas como leitura – e depois sua transformação em vídeo e/ou texto”, explica a diretora-executiva.

Para escutar e coletar a memória do outro, matéria tão sensível quanto intangível, é preciso antes aprender a olhar para si, como detalha Sonia: “Para ouvir a história do outro, tenho que saber contar a minha. Envolvemos os professores, coordenadores pedagógicos e os alunos e os incentivamos a contar sua própria história.”

Feitas as contações de histórias dos envolvidos no projeto, pergunta-se para as crianças, em geral do ensino fundamental, sobre quais moradores da cidade elas gostaria de saber mais:

“São pessoas bem comuns, mas que para os alunos existem e dizem muito da cidade. Tem o bombeiro, o gari que cata resíduos sólidos e dono de carroças bem bonitas, ou o pasteleiro da praça”, detalha Sonia.

A escola que não sabe de tudo e está sempre aprendendo

Quando a escola abre suas portas para entrevistas com as pessoas detentoras de saberes locais, descobre mais sobre a cidade e também si mesma:

“Já aconteceu de uma pessoa ter feito algo para que aquela escola existisse, e a escola nem sabe. Essa instituição, que muitas vezes se coloca como detentora de saberes, aprende que tem muitas histórias sobre ela própria que desconhece.”

Depois da escuta, as crianças têm a missão de transformar em texto e desenho o que lhes foi relatado. As fabulações que surgem da colisão entre infância e memória dos moradores mais velhos são intensas: Sônia recorda de uma menina que morava próximo ao rio Tamanduateí (SP) que ouviu de um morador local que, quando era mais jovem, era possível nadar nele. Indignada, ela questionou: “Se era tão bom, por que mudou?”

O produto final desses diálogos sobre a cidade construída em memórias consiste na feitura de livros ou exposições. “As pessoas produzem conhecimento da vida e na vida. O conhecimento é adquirido por uma experiência única, e aquela experiência produz um saber. Escutar as pessoas é a forma mais autêntica de ter acesso à isso.”

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